Um livro pode encontrar alguém em qualquer lugar
Nas últimas semanas, um clássico russo publicado em 1886 chegou ao topo da lista de livros mais vendidos no Brasil. As buscas pelo título no Google cresceram 180% e centenas de pessoas se organizaram para ler e conversar sobre o livro juntas. Poderíamos estar falando de algum fenômeno do BookTok, de uma adaptação que estreou no streaming ou de uma campanha particularmente bem-sucedida de uma editora.
Mas estamos falando de futebol.
Gustavo Scarpa, meio-campista do Atlético Mineiro, publicou em seu canal no YouTube uma resenha de A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói. O vídeo viralizou, o livro disparou nas vendas e, pouco depois, uma torcedora atleticana criou a Galeitura, comunidade nascida do encontro entre duas paixões que costumamos colocar em lugares bastante diferentes: futebol e livros. Em poucos dias, a iniciativa já reunia centenas de participantes e dezenas de milhares de seguidores nas redes sociais.
Os números impressionam, claro, mas talvez a parte mais interessante dessa história esteja em outro lugar. Não foram apenas milhares de leitores que descobriram que Gustavo Scarpa também gosta de Tolstói. Milhares de pessoas que estavam falando de futebol começaram a falar de Tolstói.
Essa diferença parece pequena, mas acho que diz muito sobre um dos desafios que temos pela frente se quisermos ampliar a leitura no Brasil. Nosso mercado aprendeu a procurar leitores onde os leitores estão: nas livrarias, nas feiras e bienais, nos clubes de leitura, nos perfis literários, nas newsletters sobre livros, no BookTok e em tantos outros espaços que se formaram ao redor da leitura. Faz sentido. Investimos em falar melhor com quem já lê, oferecer novas descobertas e fazer com que um livro encontre a pessoa certa.
Só que talvez exista uma pergunta anterior que ainda fazemos pouco: onde estão as pessoas quando elas não estão falando sobre livros?
Estão no estádio, na academia, em uma corrida de rua, assistindo a um vídeo sobre gastronomia, ouvindo um podcast de negócios ou falando sobre maternidade, música, videogame, viagem, tecnologia. Porque ninguém é apenas leitor. Uma pessoa pode gostar de futebol e de literatura russa, acompanhar a NBA e ler biografias, correr uma meia maratona e se interessar por um livro sobre saúde. Pode passar horas vendo vídeos de culinária e nunca ter entrado numa livraria procurando um livro de gastronomia.
Talvez a gente ainda segmente demais as pessoas pelo hábito de leitura e pouco pelos universos de interesse que elas carregam.
O que aconteceu com Scarpa é particularmente interessante porque, aparentemente, não nasceu de uma estratégia para vender livros. Ele já era leitor, já falava sobre suas leituras e começou a fazer isso diante de uma comunidade que chegou até ele por outra porta. O livro foi até o futebol, e não o contrário.
Na Estante Virtual, temos experimentado algo nessa direção desde o segundo semestre do ano passado, por meio de uma parceria com a Voz Futura, organização criada pelo jogador Danilo, do Flamengo. A aproximação nasceu de uma afinidade que vai além do futebol: Danilo também é um leitor que fala publicamente sobre livros, educação e formação. O que nos interessou desde o início não foi simplesmente associar livros à imagem de um jogador conhecido, mas a possibilidade de colocar a leitura em conversas e espaços que não começam necessariamente pelos livros.
Por isso, eu acompanhei o fenômeno Scarpa com uma sensação menos de surpresa e mais de confirmação. Talvez a leitura cresça também quando parar de falar apenas de leitura.
Isso não significa colocar livros aleatoriamente em todos os lugares, muito menos transformar qualquer pessoa com audiência em influenciador literário. Acho que o que torna esses encontros poderosos é justamente a autenticidade. Scarpa não parece estar seguindo um briefing para falar de Tolstói, assim como Danilo não precisa deixar de falar de futebol para falar sobre os livros que lê. São pessoas com interesses múltiplos compartilhando uma parte verdadeira delas com comunidades que construíram confiança ao redor de outros assuntos.
E talvez a confiança seja uma das ferramentas mais poderosas de descoberta que existem. Quando alguém que acompanho por causa de futebol me conta por que ele gostou de determinado livro, aquele livro deixa, por alguns minutos, de pertencer ao universo da literatura e passa a pertencer ao meu universo também. É diferente de anunciar um livro para mim. É alguém me dizendo: isso aqui talvez tenha alguma coisa a ver com você.
Para editoras, livrarias e para todo o ecossistema, existe uma oportunidade enorme nessa mudança de perspectiva. Em vez de perguntarmos apenas quais são os influenciadores de livros, podemos perguntar quem são as pessoas capazes de criar encontros com livros. Em vez de pensarmos apenas em comunidades de leitores, podemos olhar para comunidades de corredores, torcedores, cozinheiros, empreendedores, gamers, músicos ou viajantes. E, em vez de levar todo mundo até os espaços que construímos para os livros, talvez possamos levar mais livros para os espaços que as pessoas já escolheram frequentar.
Durante muito tempo, uma das perguntas mais importantes do nosso mercado foi: onde estão os leitores? Continuamos precisando respondê-la.
Mas talvez seja hora de acrescentar outra: onde estão as pessoas que poderiam se interessar por esta história?
Porque, se quisermos encontrar quem já está procurando livros, sabemos mais ou menos onde procurar. O desafio talvez esteja em criar encontros com quem não está.
Afinal, às vezes o próximo leitor de um livro ainda nem sabe que está procurando por ele.




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