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Antes do leitor, o encontro

  • Foto do escritor: Palme
    Palme
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura

Em uma das mesas que participei na FLIP, tive uma conversa que não saiu da minha cabeça.

Era um papo sobre livros usados com o Guilherme Moura, fundador da Casa do Leitor, uma livraria em Bom Jesus dos Perdões, no interior de São Paulo. Ele contou que, quando decidiu abrir a única livraria da cidade, ouviu de muita gente que aquilo era uma loucura. Que uma cidade daquele tamanho não se interessa por livros. Que uma livraria era furada.


Enquanto ele falava, fiquei pensando que talvez existisse um erro escondido nessa conclusão.

Ela parte da ideia de que primeiro precisam existir leitores para depois existir uma livraria.

E se a ordem for justamente a contrária?


Continuei pensando nisso em Paraty nos dias seguintes. Aos poucos, comecei a perceber que a própria FLIP parecia funcionar dessa maneira.

Você entra em uma casa porque gostou da fachada e sai querendo ler um autor que nunca tinha ouvido falar. Escuta uma conversa por acaso e muda completamente a programação do dia. Recebe uma indicação durante o almoço e termina a tarde procurando aquele título em uma livraria. Os livros deixam de ocupar apenas as estantes. Durante alguns dias, eles passam a ocupar a cidade.

Talvez a FLIP não seja apenas um encontro de leitores. Talvez ela seja, antes de tudo, um lugar onde aumentam as chances de pessoas e histórias se encontrarem.

Foi aí que a pergunta começou a fazer sentido. Talvez a FLIP não seja apenas um encontro de leitores. Talvez ela seja, antes de tudo, um lugar onde aumentam as chances de pessoas e histórias se encontrarem.


Essa impressão voltou comigo pro Rio.

No domingo em que a Flip acabou, acompanhei o lançamento de “Eu duvido você terminar este livro”, da Giuliana Mafra , na Galeria Magalu. A fila dobrava o quarteirão, teve gente que chegou 5 horas da manhã na porta da loja e mais de 500 exemplares foram vendidos em poucas horas. 

Claro que o sucesso da autora explica boa parte disso. Mas: quantas daquelas pessoas saíram de casa decididas a comprar aquele livro? E quantas o descobriram porque estavam passando por ali, viram a movimentação e resolveram entrar? Talvez a gente nunca saiba a resposta.


Mas comecei a perceber que aquele lançamento na Galeria, a conversa com o Guilherme e os dias em Paraty não eram histórias diferentes. Eram variações da mesma ideia.

Em todos aqueles lugares, alguém havia criado um contexto em que o encontro entre uma pessoa e uma história se tornava mais provável.


Passei muito tempo ouvindo — e repetindo — que um dos grandes desafios do nosso mercado é formar novos leitores. Continuo achando que essa é uma discussão importante. Mas saí da FLIP com a impressão de que talvez exista uma pergunta anterior.


Como criamos mais oportunidades para que pessoas e histórias se encontrem?

Essa mudança de perspectiva parece pequena, mas muda bastante coisa. Ela amplia o papel das livrarias, das bibliotecas, das escolas, das feiras literárias, dos clubes de leitura, das plataformas digitais, dos Booktokers e de todos aqueles que, de alguma forma, ajudam uma história a encontrar alguém.


Não tenho certeza de que essa ideia responda aos desafios da leitura no Brasil.

Mas, desde que voltei de Paraty, ela me parece uma pergunta melhor pra começar a conversa.

 
 
 

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